quinta-feira, maio 31, 2007

Tortura moderna


"Tenta sim. Vai ficar lindo."

Falaram que com a tal depilação eu ia me sentir dez quilos mais leve. Mas acho que pentelho não pesa tanto assim. Eu imaginava que ia doer, porque elas (minhas amigas) ao menos me avisaram que isso aconteceria.
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- Oi, queria marcar depilação com a Penélope.
- Vai depilar o quê?
- Virilha.
- Normal ou cavada?
- Cavada mesmo.
- Amanhã, às... Deixa eu ver...13h?
- Ok. Marcado.
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Chegou o dia em que perderia dez quilos. Escolhi uma calcinha apresentável. E lá fui. Assim que cheguei, Penélope estava esperando. Já senti um frio na barriga ali mesmo, sem desabotoar nem um botão.

- Querida, pode deitar.

Tirei a calça e, timidamente, fiquei lá estirada de calcinha na maca. Mas a Penélope mal olhou pra mim. Virou de costas e ficou de frente pra uma mesinha. Vi coisas estranhas. Uma panela, uma máquina de cortar cabelo, uma pinça.

Penélope então deixou a calcinha tampando apenas uma fina faixa da Abigail, nome carinhoso de meu órgão, esqueci de apresentar antes.

- Os pêlos estão altos demais. Vou cortar um pouco senão vai doer mais ainda.
- Ah, sim, claro. Claro nada, não entendia porra nenhuma do que ela fazia. Mas confiei. Derepente, ela volta da mesinha de tortura com uma espátula melada e quente (via pela fumaça).

- Pode abrir as pernas.
- Assim?
- Não, querida. Que nem borboleta, sabe? Dobra os joelhos e depois joga cada perna pra um lado.
- Arreganhada, né?

Foi rápido e fatal. Achei que toda a pele de meu corpo tivesse saído. Não tive coragem de olhar. Até procurei minha bolsa com os olhos, já cogitando a possibilidade de ligar para o Samu. Tudo isso buscando me concentrar em minha expressão, para fingir que era tudo super natural.

Penélope perguntou se estava tudo bem quando me notou roxa. Eu havia esquecido de respirar. Ela riu de novo como quem pensa "que garota estranha". O processo medieval continuou. A cada puxada eu tinha vontade de espancar Penélope. Lembrava de minhas amigas recomendando a depilação e imaginavaque era tudo uma grande sacanagem, só pra me fazer sofrer.

- Quer que tire dos lábios?
- Não, eu quero só virilha, bigode não.
- Não, querida, os lábios dela aqui ó.

Não, não, pára tudo. Depilar os tais grandes lábios ? Putz, que idéia. Mas topei. Quem está na maca tem que se fuder mesmo.

- Menina, mas tá cheio de encravado aqui.

"Me leva daqui, Deus, me teletransporta" . Só voltei à terra quando entre uns blábláblás ouvi a palavra pinça.

- Vou dar uma pinçada aqui porque ficaram um pelinhos, tá?
- Pode pinçar, tá tudo dormente mesmo, tô sentindo nada.

Estava enganada. Senti cada picadinha daquela pinça filha da mãe arrancar cabelinhos resistentes da pele já dolorida. E quis matá-la. Mas mal sabia que o motivo para isso ainda estava por vir.

- Vamos ficar de lado agora?
- Hein?
- Deitar de lado pra fazer a parte cavada.

Pior não podia ficar. Obedeci à Penélope. Deitei de ladinho e fiquei esperando novas ordens.

- Segura sua bunda aqui?
- Hein?
- Essa banda aqui de cima, puxa ela pra afastar da outra banda.

Tive vontade de chorar. Eu não podia ver o que Pê via. Mas ela estava decara para ele, o olho que nada vê. Quantos haviam visto, à luz do dia, aquela cena? Nem minha ginecologista. Quis chorar, gritar, peidar na cara dela, como se pudesse envenená-la.

Mas de repente fui novamente trazida para a realidade. Sei que ela deve ver mil cus por dia. Aliás, isso até alivia minha situação. Por que ela lembraria justamente do meu entre tantos? Pê puxou a cera. Achei que a bunda tivesse ido toda embora. Num puxão só, Pê arrancou qualquer coisa que tivesse ali. Com certeza não havia nem uma preguinha pra contara história mais.

- Vira agora do outro lado.

Porra.. por que não arrancou tudo de uma vez? Virei e segurei novamente a bundinha. E então, piora. Apenas uma lágrima solitária escorreu de meus olhos. Era dor demais,vergonha demais. Aquilo não fazia sentido. Estava me depilando pra quem? Ninguém ia ver o tobinha tão de perto daquele jeito. Só mesmo Penélope.

- Terminamos. Pode virar que vou passar maquininha.
- Tá, passa essa merda...
- Baixa a calcinha, por favor.

Foram dois segundos de choque extremo. Baixe a calcinha, como alguém fala isso sem antes pegar no peitinho? Ela viu tudo, da perereca ao cu. O que seria baixar a calcinha? E essa parte não doeu mesmo, foi até bem agradável.

- Prontinha. Posso passar um talco?
- Pode, vai lá, deixa a bicha grisalha.
- Tá linda! Pode namorar muito agora.

Namorar...namorar. .. eu estava com sede de vingança. Admito que o resultado é bonito, lisinho, sedoso. Mas doía e incomodava demais. Queria matar minhas amigas. Queria virar feminista, morrer peluda, protestar contra isso. Queria fazer passeatas, criar uma lei antidepilação cavada.

Autora desconhecida, mas deve ter sobrevivido.
Se quiserem ler o texto completo, visitem o Blog Mães na Rede, no link ali ao lado.

3 comentários:

Lu Brasil disse...

Mana, eu escrevi um texto sobre o assunto na epoca do egua me einterna rs.
Mas deletei, que pena;
Adorei (passei por isso ontem)
Bjs

elisangela disse...

oi minha linda! obrigadaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa e volte sempre ta ...bjs

Renata disse...

Ahahah, também me depilei ontem, mas não fiz virilha, É O PIOR, com certeza!!!!! Adorei o texto, muito legal, não conhecia!
Beijos e bom fim de semana!!

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